Exercícios para a melhoria da concentração

A concentração é um atributo que todos nós temos desenvolvido em níveis diferentes. Atualmente, todo o processo de reflexão feito pelo ser humano exige um nível de abstração do exterior e foco, ou concentração, em apenas um objeto. Poucas são as pessoas que conseguem fazer isso com sucesso por mais de alguns minutos… os efeitos do meio social em que estamos inseridos, em que quase tudo é obtido com rapidez e facilidade, sem esforço mental, acaba prejudicando nossa habilidade de nos concentrar.

Fiz uma breve busca sobre exercícios para aumentar a concentração, e encontrei um site (www.lendo.org) com a seguinte proposta de atividades:

1. Pegue um livro e conte o número de palavras de uma determinada página. Conte novamente após terminar o exercício, para conferir se o resultado será o mesmo.

2. Conte de 100 até 1.

3. Conte de 100 até um, pulando a cada 3 números: 100, 97, 94, 91 etc.

4. Escolha um som ou uma palavra e repita em sua mente por 5 minutos. Quando conseguir fazer isso por 10 minutos, você estará pronto para o próximo exercício.

5. Pegue uma fruta, uma maçã, laranja, banana ou qualquer outra, e segure-a em suas mãos. Examine-a a partir de todos os lados, mantendo sua atenção totalmente sobre ela. Não permita que pensamentos irrelevantes o distraiam, nem sequer pensamentos relacionados àquela fruta, como o momento em que a comprou, sobre como ela cresceu, seu valor nutritivo, etc. Mantenha-se calmo e tente ignorar esses pensamentos. Apenas olhe para a fruta, focando sua atenção nela sem pensar em mais nada, examine a forma, o cheiro e a sensação de segurá-la em suas mãos.

6. Imagine a fruta. Esse exercício é parecido com o número 5, a diferença é que dessa vez você imagina a fruta ao invés de olhar para ela. Comece olhando-a e examinando-a por cerca de 2 minutos, igual no exercício 5, então faça o seguinte. Feche seus olhos e tente visualizar, cheirar, sentir o sabor e tocar a fruta em sua imaginação. Tente visualizar uma imagem clara e bem definida. Se a imagem se tornar pouco clara, abra seus olhos, olhe novamente para a fruta por um instante, e feche os olhos novamente, continuando o exercício. Imaginar a fruta em suas mãos ou em uma mesa pode ser um modo de facilitar a tarefa.

7. Pegue um objeto pequeno, como uma colher, garfo ou copo. Concentre-se em um desses objetos. Olhe para ele de todos os ângulos sem qualquer tipo de verbalização, isto é, sem nenhuma palavra em sua mente. Apenas olhe para o objeto sem formular qualquer pensamento.

8. Desenhe figuras. Passe para este exercício somente após executar os anteriores com facilidade. Desenhe uma figura geométrica pequena, algo em torno de 10 centímetros, pode ser um triângulo, um retângulo ou um círculo, pinte-a com a cor que desejar e concentre-se nela. Você deve enxergar apenas a figura, nada mais. Para você, a única coisa que existe nesse momento é a figura. Tente não pensar através de palavras durante o exercício. Fique olhando para a figura a sua frente, apenas isso. Tente fazer isso sem forçar seus olhos.

9. Imagine a figura. Igual o exercício 8, mas dessa vez você vai imaginar a figura com seus olhos fechados. Como no exercício 6, caso você esquecer da aparência da figura, abra seus olhos por alguns segundos para rever o desenho, depois continue a atividade.

10. Tente, por pelo menos 10 minutos, não pensar em nada. Este é o mais difícil dos exercícios e só deve ser tentado após você conseguir realizar facilmente todos os outros. Os exercícios de concentração anteriores, se praticados corretamente, lhe proporcionarão a habilidade de silenciar seus pensamentos. Isso se tornará mais fácil com o tempo.

Carta enviada a Mike Rowe

Mike Rowe é um apresentador do Discovery Channel e tem a série Dirty Jobs, em que ele viaja pelo mundo realizando aqueles que são considerados os piores trabalhos, além de entrevistando pessoas que tem estes trabalhos. Nesse post ele responde uma pergunta de modo genial (em inglês):

Hey Mike! I’ve spent this last year trying to figure out the right career for myself and I still can’t figure out what to do. I have always been a hands on kind of guy and a go-getter. I could never be an office worker. I need change, excitement, and adventure in my life, but where the pay is steady. I grew up in construction and my first job was a restoration project. I love everything outdoors. I play music for extra money. I like trying pretty much everything, but get bored very easily. I want a career that will always keep me happy, but can allow me to have a family and get some time to travel. I figure if anyone knows jobs its you so I was wondering your thoughts on this if you ever get the time! Thank you!

– Parker Hall

MIKE’S RESPONSE:

Hi Parker,

My first thought is that you should learn to weld and move to North Dakota. The opportunities are enormous, and as a “hands-on go-getter,” you’re qualified for the work. But after reading your post a second time, it occurs to me that your qualifications are not the reason you can’t find the career you want.

I had drinks last night with a woman I know. Let’s call her Claire. Claire just turned 42. She’s cute, smart, and successful. She’s frustrated though, because she can’t find a man. I listened all evening about how difficult her search has been. About how all the “good ones” were taken. About how her other friends had found their soul-mates, and how it wasn’t fair that she had not.

“Look at me,” she said. “I take care of myself. I’ve put myself out there. Why is this so hard?”

“How about that guy at the end of the bar,” I said. “He keeps looking at you.”

“Not my type.”

“Really? How do you know?”

“I just know.”

“Have you tried a dating site?” I asked.

“Are you kidding? I would never date someone I met online!”

“Alright. How about a change of scene? Your company has offices all over – maybe try living in another city?”

“What? Leave San Francisco? Never!”

“How about the other side of town? You know, mix it up a little. Visit different places. New museums, new bars, new theaters…?”

She looked at me like I had two heads. “Why the hell would I do that?”

Here’s the thing, Parker. Claire doesn’t really want a man. She wants the “right” man. She wants a soul-mate. Specifically, a soul-mate from her zip code. She assembled this guy in her mind years ago, and now, dammit, she’s tired of waiting!!

I didn’t tell her this, because Claire has the capacity for sudden violence. But it’s true. She complains about being alone, even though her rules have more or less guaranteed she’ll stay that way. She has built a wall between herself and her goal. A wall made of conditions and expectations. Is it possible that you’ve built a similar wall?

Consider your own words. You don’t want a career – you want the “right” career. You need “excitement” and “adventure,” but not at the expense of stability. You want lots of “change” and the “freedom to travel,” but you need the certainty of “steady pay.” You talk about being “easily bored” as though boredom is out of your control. It isn’t. Boredom is a choice. Like tardiness. Or interrupting. It’s one thing to “love the outdoors,” but you take it a step further. You vow to “never” take an office job. You talk about the needs of your family, even though that family doesn’t exist. And finally, you say the career you describe must “always” make you “happy.”

These are my thoughts. You may choose to ignore them and I wouldn’t blame you – especially after being compared to a 42 year old woman who can’t find love. But since you asked…

Stop looking for the “right” career, and start looking for a job. Any job. Forget about what you like. Focus on what’s available. Get yourself hired. Show up early. Stay late. Volunteer for the scut work. Become indispensable. You can always quit later, and be no worse off than you are today. But don’t waste another year looking for a career that doesn’t exist. And most of all, stop worrying about your happiness. Happiness does not come from a job. It comes from knowing what you truly value, and behaving in a way that’s consistent with those beliefs.
Many people today resent the suggestion that they’re in charge of the way the feel. But trust me, Parker. Those people are mistaken. That was a big lesson from Dirty Jobs, and I learned it several hundred times before it stuck. What you do, who you’re with, and how you feel about the world around you, is completely up to you.

Good luck –
Mike

P.S. I’m serious about welding and North Dakota. Those guys are writing their own ticket.

P.P.S. Think I should forward this to Claire?

A Ética do Advogado Criminalista

As recentes críticas ao advogado Márcio Thomaz Bastos por ter assumido a defesa de Carlinhos Cachoeira demonstram a persistente dificuldade da população em entender a ética do advogado criminalista. Advogados de defesa não escolhem clientes, pois todo acusado tem direito à defesa técnica.

Por Túlio Vianna

Qualquer pessoa pode entender facilmente a contribuição social dada por um médico, um professor, um ator, um pedreiro ou um lixeiro. Todos eles, cada um a seu modo, contribuem para uma vida social melhor. Difícil, mesmo, é entender como alguém pode ganhar a vida “defendendo bandidos”.

O imaginário popular divide os advogados criminalistas em duas categorias: os “asquerosos defensores de bandidos” e os “honrados defensores de inocentes”. Na primeira categoria estaria a grande maioria dos advogados criminalistas, que teria vendido todos os seus princípios morais ao vil metal. Na segunda categoria estaria uma minoria de advogados honrados que trabalham por um ideal maior de justiça, só defendem inocentes e chegam a advogar sem cobrar honorários. Uma espécie de ONG de uma pessoa só, que paga suas contas com a gratidão do inocente e a admiração do público em geral.

A vida real, porém, é bem diversa desta visão romanceada da advocacia criminal. A ética do advogado criminalista o impede de fazer justamente o que a maioria das pessoas gostaria que ele fizesse: julgamentos morais dos seus clientes. Eis aqui o grande equívoco: advogado não julga; quem julga é o juiz. Advogado defende.

O escritório de advocacia não é um tribunal prévio que avalia se o cliente merece ser defendido ou abandonado à sua própria sorte e ao linchamento social. Quando um médico vai atender um paciente não faz uma triagem prévia para saber se o cidadão merece ou não ser curado. Professores no início do semestre não fazem qualquer seleção para saber se os alunos matriculados em suas disciplinas merecem ou não estudar com eles. Atores, pedreiros e lixeiros também prestam seus serviços indistintamente sem se preocuparem em fazer qualquer triagem moral para saber se os usuários são ou não merecedores de seu trabalho. O advogado, porém, no imaginário popular teria um suposto dever ético de escolher seus clientes aceitando os “bons” e rejeitando os “maus”.

A sociedade não recrimina o médico que cura o criminoso, o professor que leciona para o criminoso, o ator que entretém o criminoso, o pedreiro que constrói para o criminoso e o lixeiro que recolhe o lixo do criminoso. A sociedade não recrimina sequer o padre que ouve a confissão do criminoso e o perdoa por seus pecados. Mas o advogado, ao prestar seus serviços de defesa técnica ao criminoso, passa a ser visto quase como seu cúmplice.

É aqui que a crítica se confessa uma homenagem. No imaginário popular, o bom advogado é concebido como alguém capaz de absolver um culpado, mesmo contrariando todas as provas apresentadas pela acusação. Capaz de superar com sua habilidade o promotor e o juiz que são pagos com as mais altas remunerações da república, para respectivamente acusar e dar a palavra final sobre o caso. Em suma: o advogado de defesa é visto como uma espécie de anti-herói capaz de evitar que a “justiça” seja feita.

O imaginário popular superestima a participação do advogado no julgamento. Na prática, os poderes do advogado são limitados e sua participação no processo restringe-se a tentar evitar os excessos da acusação e o arbítrio judicial contra seu cliente. A lei nem sempre é respeitada pelos servidores públicos que têm o poder de investigar, acusar e julgar: comunicações telefônicas são interceptadas sem autorização, domicílios são violados ilegalmente, confissões são extraídas mediante tortura e toda sorte de abusos são praticados em nome de um suposto bem maior que é fazer “justiça” a todo custo. Tudo com a tolerância para não dizer o apoio tácito da maior parte da sociedade, que está disposta a passar por cima das leis que ela própria criou para punir o inimigo da vez.

O advogado tem a dura tarefa de lutar contra o delegado, o promotor, o juiz, a mídia e a própria sociedade para que se respeite a lei, mesmo que para isso tenha que se absolver um culpado. Destarte, o advogado criminalista não trabalha por um julgamento “justo”, se se entender por “justiça” a condenação do culpado a todo custo, mesmo que para isso se tenha que passar por cima das leis. No entanto, o conceito de “justiça”, em um Estado Democrático de Direito, pressupõe o respeito às regras do jogo, mesmo quando contrárias aos interesses da maioria. O advogado é pago pelo seu cliente e não pelo Estado; sendo assim, seu compromisso é com o acusado e não com a sociedade. Seu limite ético não está na culpa ou na inocência do acusado, mas no estrito cumprimento da lei.

É justamente este distanciamento moral que o advogado tem da fúria punitiva da maioria que faz dele o mais rigoroso fiscal da lei e dos direitos fundamentais da pessoa humana. O advogado é o profissional que existe para lembrar a toda sociedade, durante todo o processo, que os fins não justificam os meios; que não se pode fazer justiça passando por cima das leis. E é nesse sentido que a Constituição da República em seu artigo 133 estabelece que “o advogado é indispensável à administração da justiça”.

A ética do advogado criminalista é muito singela: a lei deve ser respeitada não só no julgamento de inocentes, mas também no de culpados. Todo ser humano tem direito de ser julgado de acordo com as regras do jogo. Inocentes ou culpados; homens ou mulheres; brancos ou negros; ricos ou pobres.

Infelizmente, no caso dos pobres, o Estado brasileiro quase nunca cumpre seu papel de fornecer assistência jurídica gratuita e de qualidade aos condenados, por meio de Defensorias Públicas bem estruturadas. Mas isso não é culpa dos advogados; pelo contrário, muitos gostariam de prestar concurso para a Defensoria Pública se estas remunerassem seus defensores com valores semelhantes ao que o Estado paga ao órgão de acusação. Criticar advogados por cobrar altos honorários de seus clientes ou por não defender gratuitamente os pobres é transferir a responsabilidade do Estado de garantir defesa gratuita para o cidadão que não pode pagar por ela para o profissional que, como qualquer outro, trabalha para pagar suas contas ao final do mês.

Vivemos em um mundo capitalista no qual – gostemos ou não – médicos vendem diagnósticos, professores vendem conhecimento, atores vendem entretenimento, pedreiros vendem moradias, lixeiros vendem limpeza e advogados vendem defesas criminais. E os advogados mais procurados têm seu trabalho mais valorizado e cobram mais por ele. Não há nada de antiético em se cobrar caro por um trabalho bem feito. Antiético é o Estado não fornecer assistência jurídica de qualidade para quem não pode pagar.

E é no pagamento dos honorários que – mais uma vez – o imaginário popular deseja que o advogado faça um novo julgamento de seu cliente para descobrir a origem do dinheiro utilizado para pagar seus honorários. Nunca se cogitou que um médico devesse exigir de seu paciente que comprovasse a origem lícita do dinheiro usado para pagar suas consultas. Nunca se cogitou de uma escola exigir a declaração de imposto de renda do responsável pelo pagamento das mensalidades para se saber se a origem do dinheiro é lícita. Nunca se cogitou de que qualquer profissional fosse obrigado a julgar se a origem do dinheiro de seu cliente é lícita ou ilícita para só então aceitar o pagamento. Mas há quem defenda que o advogado tenha o dever ético de julgar a origem do dinheiro do seu cliente. Ora, se o dinheiro é lícito ou ilícito quem tem que investigar é a Receita Federal e o Ministério Público. O advogado é um profissional liberal e não é pago pelo Estado para investigar nada nem ninguém.

Não bastasse quererem que o advogado julgue se o cliente merece ou não defesa, e se seu dinheiro é lícito ou não, há quem defenda ainda que o advogado tenha que fazer um julgamento ideológico do cliente para decidir se ele merece defesa. Neste sentido, um advogado militante de esquerda estaria impedido moralmente de defender acusados ligados a partidos de direita, advogadas feministas estariam proibidas de defender estupradores e acusados de violência doméstica, advogados negros não poderiam defender racistas, advogados gays não poderiam defender homofóbicos; em suma, o advogado deveria submeter seu cliente a uma triagem ideológica antes de aceitar sua causa, sob pena de ser considerado um “mercenário traidor do movimento”.

Obviamente nunca se cogitou que um médico de esquerda pudesse recusar atendimento a um filiado a partido de direita; ou que uma professora feminista pudesse proibir algum aluno que bateu em sua companheira de frequentar suas aulas; ou qualquer outro profissional recusar-se a prestar um serviço por conta de sua ideologia oposta a do cliente. Somente do advogado é exigido um julgamento ideológico prévio antes da prestação do serviço.

O advogado deve ser julgado politicamente pelas ideias que expressa na vida pública e pelas causas nas quais eventualmente tenha advogado de graça; nunca por seus clientes. Em sua vida profissional, assim como um médico ou qualquer outro profissional liberal, atenderá indistintamente clientes de esquerda ou de direita, machistas ou feministas, racistas ou não, homofóbicos ou gays e o simples fato de defendê-los em juízo não o fará defensor de qualquer uma destas bandeiras, pois se trata de uma atividade profissional e não de amizade ou companheirismo.

Advogados criminalistas não escolhem clientes, pois a lei vale para todos. Mesmo um nazista culpado de ter estuprado e matado uma criança tem o direito de ser tratado conforme determina a lei. Quanto mais grave o crime, maior é o clamor público por uma condenação rápida e rigorosa. E quanto maior o clamor público e a pressa em se julgar, maior a necessidade de se cumprir rigorosamente a lei para se evitar julgamentos precipitados e condenações injustas.

No imaginário popular a advocacia criminal não é vista com uma profissão, mas como uma espécie de sacerdócio, no qual o objetivo do advogado não é ganhar o pão de cada dia, mas fazer justiça para o mundo. É preciso que a sociedade entenda que advocacia não é um hobby no qual só se defende pessoas inocentes e com a mesma ideologia política do advogado, pelo prazer que esta defesa irá proporcionar ao defensor. Também não é militância política, nem religião. Advocacia é uma profissão e, como tal, se o cliente está disposto a pagar o valor do serviço, não há razão para recusá-lo. O advogado, assim como qualquer outro profissional, troca trabalho por dinheiro e não há nada de reprovável nisso. Talvez um dia a humanidade supere o capitalismo e os trabalhadores possam conciliar trabalho e prazer em uma única atividade, mas no mundo atual, isso nem sempre é possível para a maioria dos profissionais, incluindo aí os advogados.

O advogado é o profissional que ganha a vida defendendo que a lei seja cumprida indistintamente, tanto para culpados quanto para inocentes. Se isso ainda hoje causa repulsa social, é porque nosso conceito de democracia ainda é demasiadamente frágil para reconhecer que a lei deva valer para todos, seja ela favorável ou não às nossas expectativas. E é para sempre lembrar a sociedade disso que existem os advogados.

Retirado do site da Revista Fórum – http://revistaforum.com.br/blog/2012/09/a-etica-do-advogado-criminalista/

África

http://www.unodc.org/documents/data-and-analysis/Studies/TOC_East_Africa_2013.pdf

Estudo das Nações Unidas revela alguns pontos sobre a criminalidade transnacional que ocorre no oeste da África:

1. O crime organizado transnacional na África Oriental é produto de mercados ilícitos que ligam continentes e fraquezas legais;

2. Devido a conflitos e à pobreza, a África Oriental acaba por produzir uma grande e vulnerável quantidade de migrantes que são abusados e explorados em múltiplos estágios de suas jornadas;

3. Mais de 100.000 pessoas pagaram a traficantes para os transportar através do Golfo de Aden ou pelo Mar Vermelho para o Iêmen, em 2012, gerando uma renda para os barqueiros de mais de 15 milhões de dólares;

4. Por volta de 80.000 desses migrantes tentaram atravessar o Iêmen para a Arábia Saudita, mas muitos deles foram interceptados por traficantes e sujeitados a uma miríade de abusos, incluindo confinamento, espancamento, extorsão e estupro;

5. Apesar dos grandes números, o fluxo de migrantes é concentrado, a maioria embarcando de duas áreas portuárias (Obock, Djibouti e Boosaaso, Somália), onde intervenções poderiam ser feitas;

6. Heroína tem sido traficada para e através da África Oriental desde, ao menos, 1980, mas uma série de grandes apreensões sugere que esse fluxo aumentou;

7. Já foi transportada via aérea, mas parece que a grande quantidade de heroína é levada por embarcações da Costa Makran, uma área que liga o Irã e o Paquistão;

8. Estima-se que o mercado local consome pelo menos 2.5 toneladas de heroína pura por ano, o que vale 160 milhões de dólares. Os volumes traficados para a região parecem ser muito maiores, quase 22 toneladas, o que sugere tráfico substancial. A África Oriental é conhecida como uma área de trânsito para heroína destinada à África do Sul e África Oriental;

9. Dada a prevalência de doenças transmitidas por sangue e uso de seringas, a irradiação da heroína por toda a região deve ser cuidadosamente monitorada;

10. Descobertas recentes indicam que a taxa de caça ilegal na África Oriental tem aumentado, elevando os níveis que podem ameaçar a população local de elefantes;

11. O bruto de grandes carregamentos de marfim da África para a Ásia parece passar pelos portos de contêineres do Kenya e pela República Unida da Tanzânia, onde intervenções podem ser feitas;

12; É estimado que entre 5.600 a 15.400 elefantes são caçados ilegalmente na África Oriental anualmente, produzindo entre 56 e 154 toneladas ilícitas de marfim, das quais 2/3 (37 toneladas) são destinadas para a Ásia, valendo por volta de 30 milhões de dólares em 2011.

13. Piratas da Somália trouxeram 150 milhões de dólares em 2011, o equivalente a 15% do PIB do país;

14. Uma intervenção efetiva forçou os piratas a irem mais longe na costa para atingirem seus alvos: em 2005, a média de ataques piratas ocorriam a 109km da costa da Somália. Em 2012, foi 746km. Os navios também se tornaram mais efetivos em se defenderem;

15. O aumento do risco associado a expedições prolongadas e contra-medidas internacionais contribuiu a um declínio na pirataria: em abril de 2009, piratas sequestraram 16 navios, mas após april de 2011, a média foi menor que 1 ao mês. Não houve sequestros bem-sucedidos para adquirir a vantagem do resgate na área da Somália no primeiro semestre de 2013.

Estimulação da Memória e Uso do Cérebro

Após ler o livro “Memória Brilhante”, de Tony Buzan, senti-me inspirado a repassar alguns conhecimentos importantes que adquiri pela leitura.

1. O cérebro funciona como se fosse um músculo. Se ele for exercitado, responderá bem quando necessário. Se não for estimulado, sua resposta será lenta e insatisfatória. Também, não importa quando se deseja aumentar a potencialidade cerebral – basta começar que os resultados virão naturalmente.

2. Há dois hemisférios cerebrais que funcionam cada um do seu modo. O que estimula o hemisfério Direito é a exatidão, a lógica, a linearidade. O hemisfério Esquerdo, a criatividade, o ritmo, a emoção. Logo, para haver uma produtividade global do cérebro, devemos captar e interpretar tudo com que entramos em contato com ambas as características.

LadoEsquerdoLadoDireito

3. Como tudo relacionado à consciência, a capacidade que temos de nos lembrar das coisas depende principalmente da nossa vontade. Pensar negativa atrairá reações negativas do nosso cérebro, obviamente. Elimine agora o “não consigo”!

4. Organização é fundamental. Devemos organizar nossos pensamentos e memórias em categorias. Neste ponto vale a analogia de um armário de arquivo: se vamos jogar todos os documentos que temos sem ordem alguma, a recuperação de um documento específico fica inviável. Se mantivermos cada assunto em uma pasta específica, por outro lado, a recuperação é bem mais eficaz.

5. Há momentos diferentes para as informações. Em um primeiro momento, uma informação permanece na nossa memória de curto prazo. Sua internalização e consolidação, entretanto, levam tempo, afinal ela será transferida da memória de curto prazo para a memória de longo prazo.

6. É importante fazer um “aquecimento” cerebral (brain teaser) antes de se começar uma sessão de aprendizado, qual seja assistir uma aula,  uma palestra, ou ler um livro. A concentração apresenta flutuações em sua intensidade. O período mais favorável para se obter o máximo em memorização e compreensão é de 20 a 60 minutos após o início do processo. É por isso que gosto, antes de começar a estudar, fazer algum exercício de lógica como aquecimento. Também, é importante fazer intervalos que dão ao cérebro um período de tempo para que haja absorção do conteúdo.

7. Revisões e repetições são muito úteis – são elas que irão sedimentar o conteúdo na memória de longo prazo.

Deep Web

Ultimamente venho me deparando com várias menções à deep web (ou dark web) e, como já tive alguma experiência em explorá-la, resolvi escrever sobre o tema. Se você está curioso, o link para download do tor, que é o modo de se conectar a ela, está no final da postagem.

dw

Se formos imaginar um esquema que ilustre a internet como um todo, essa imagem cumpre sua função. A deep web tem esse nome por ser “profunda”, em oposição a “superficial”. Profunda no sentido de não ser acessada por qualquer um. O usuário comum normalmente se contenta com o que encontra na superfície, ou seja, com os sites que visita pelo seu navegador: facebook, google, webmail, notícias etc. Na deep web estão sites que os buscadores da surface web não encontram. Isto significa que a intranet de uma empresa pode ser considerada deep web para quem não faz parte dessa empresa, ou os dados de vôos de companhias aéreas, por exemplo. Afinal, não é uma simples busca no google que vai te trazer tais informações.

De fato, são poucas pessoas que sequer sabem da existência de uma dimensão oculta da rede. No meu caso, ao visualizar aquela imagem típica, do iceberg, em que a ponta dele equivale à internet superficial e o restante dele à deep web, fiquei bastante curioso e quis saber mais do que se tratava. Enfim, logo descobri que o ponto principal da deep web é o anonimato.

icebergdeepweb

De certa forma, anonimato tanto de quem está conectado a ela como também do seu conteúdo, em relação a quem está na superfície. Como eu disse, os sites da deep web não estão vinculados a nenhum buscador, como google ou bing. Mais a frente vou dar um exemplo de link de lá.

Os usuários da deepweb se conectam por meio de um pacote de criptografia que os tornam praticamente anônimos. Fiz o teste de verificar qual era o meu ip enquanto a acessava e, a cada teste, uma localização geográfica aparecia: Alemanha, Suécia, Japão, Estados Unidos… De uma forma bem simples, isto ocorre porque, ao se conectar, de uma forma solidária entre a comunidade anônima, é possível o usuário compartilhar o próprio ip para servir de node. Cada node corresponde a uma conexão, e se eu quero visitar algum site da deep web, a informação que sai do meu computador e vai para o servidor em que o site está hospedado passa por inúmeros nodes. Eis o motivo do anonimato. Não se tem como rastrear um acesso assim. Eis o motivo também da lentidão da “navegação”. Proporcionalmente, se eu quero acessar a wikipedia aqui, consigo abrir o site em questão de segundos. Na deepweb, se eu quero acessar a Hidden Wiki (wiki escondida), pode levar até alguns minutos – é a informação ricocheteando de nodenode, escondendo o usuário.

E o que leva alguém a querer permanecer anônimo? Este é o ponto que separa os bem-intencionados dos mal-intencionados. Muita gente utiliza a deep web em países onde a internet é censurada para poder se comunicar com seus pares e com o resto do mundo. Há rumores de que a primavera árabe, que culminou com a queda de vários ditadores no oriente médio, foi orquestrada pela deep web. Wikileaks também começou por lá. Afinal, de que outra forma milhares de documentos secretos e verídicos que foram transmitidos entre membros do governo encontrariam liberdade para existir?  Se fosse na internet superficial, os sites ou servidores que os armazenassem seriam censurados rapidamente. Também, muitos hackers se encontram por lá para organizar seus ataques. A deep web possui muitos fóruns anônimos, com os mais variados temas de interesse, e a quantidade de e-books disponíveis a todos é imensa.

Entretanto, existe quem prefira permanecer anônimo por motivos escusos. A deep web é também o ponto de encontro de traficantes de tudo quanto é tipo, que aproveitam o anonimato para fazer suas transações utilizando bitcoins, a moeda de troca da rede. E não é só isso – muitos pedófilos aproveitam essas vantagens para se reunir e trocar fotos e vídeos pornográficos ilícitos. Snuff films, aqueles filmes em que pessoas são mortas na gravação, também podem ser vistos lá.

As possibilidades são inúmeras, e muitas pessoas se aproveitam da ingenuidade dos outros para sacanearem. Por exemplo, alguém coloca um link para algum site escondido em um fórum da deepweb. A pessoa que vê o link fica curiosa, clica nele e acaba abrindo uma imagem de pornografia infantil explícita. Algo totalmente desgradável, que a faz até virar a cabeça para longe do monitor. É o tipo de coisa que se encontra por lá. O interessante é que muitos agentes e investigadores da polícia civil e federal (pelo menos aqui no Brasil) acessam a rede e, com a ajuda de grupos hackers, acabam desmantelando várias redes de troca de conteúdo ilegal.

Além disso, por ser o local em que muita gente que tem  muito conhecimento de informática está reunida, o usuário comum não tem como saber se está totalmente seguro. Esse foi o principal motivo de eu ter parado de entrar lá. Afinal, meus arquivos pessoais estão no meu computador, eu acesso minhas contas de email e do banco por aqui também, e prefiro fechar a porta para esse tipo de coisa.

red_onions

Há quem chame a deep web de onion web. A alusão à cebola acontece em referência às camadas que, quanto mais você descasca, mais chora… De fato, os endereços da deepweb, ao invés de “www.wikipedia.org”, são “http://kpvz7ki2v5agwt35.onion/wiki/index.php/main_page”, e você não consegue acessar diretamente pelo seu navegador. Além disso, existe o mito de que há 7 camadas na deepweb, sendo que as mais profundas são onde estão os conteúdos mais escondidos e mais terríveis. Como disse, eu, particularmente, considero isto um mito. Do mesmo modo que eu, ao entrar no meu email tenho que inserir um nome de usuário e uma senha, também preciso de certas credenciais para acessar alguns locais da deepweb. Alguns desses sites são mais difíceis de achar, mas dizer que tal coisa é encontrada na camada 5, isso é bobagem.

Enfim, o tempo que passei por lá foi bem interessante. Conheci um cara que gostava de ser um explorador e arqueólogo da deep web, procurando sites que há muito tempo deixaram de ser atualizados e pararam de ser linkados e, por isso, se perderam nas profundezas da rede; participei de um fórum brasileiro, mas logo me desiludi ao ver que a grande maioria dos posts eram sobre  teoria da conspiração e aquelas correntes de e-mail contando uma historinha indignante, em que os membros se reuniam pra reclamar de “como o governo deixa uma coisa dessa acontecer!!!”; li sobre muitos grupos que preferem manter suas discussões em anonimato, como um grupo que resgatava animais domésticos que eram maltratados em suas casas, sem o dono saber, ou outro que discutia sobre produção de energia elétrica por eles mesmos, cortando os vínculos com os serviços públicos, lá nos Estados Unidos.

Se você mantiver uma postura de ceticismo e desconfiança, não acreditando em tudo que escrevem por aí, e souber um pouco sobre segurança virtual, pode ser que acha a deep web produtiva, apesar da lentidão. Infelizmente, perdi o endereço .onion de todos os locais que eu visitava, e não tenho como os divulgar aqui.

Este post foi meramente explicativo. Se você tem interesse em se conectar e explorar a deepweb, é necessário entrar em https://www.torproject.org/ para saber como proceder e para fazer os downloads necessários. Faça isto por sua própria conta e risco.

Zebra Puzzle

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Estudar lógica foi e sempre continuará sendo um excelente meio de melhorar o raciocínio e agilizar certas operações mentais. E lógica, de certa maneira, está presente em nosso dia-a-dia quase totalmente. Basta se indagar se a última tarefa que você realizou foi feita com ou sem lógica!
Por exemplo, ao organizar o guarda-roupas. Há pessoas que preferem organizar logicamente cada gaveta ou prateleira, e aquelas para as quais ordem não é importante. O resultado disso a gente vê na hora de escolher o que vestir, todo dia.
Enfim, foi-me mostrado o Zebra Puzzle alguns dias atrás, um problema de lógica que alguns dizem ter sido criado por Einstein (fato não comprovado), e que apenas 2% da população mundial consegue resolver. Trata-se de um conjunto de proposições, afirmativas, cada qual trazendo uma ou duas informações. A versão original é a seguinte (em inglês):

1. There are five houses.
2. The Englishman lives in the red house.
3. The Spaniard owns the dog.
4. Coffee is drunk in the green house.
5. The Ukrainian drinks tea.
6. The green house is immediately to the right of the ivory house.
7. The Old Gold smoker owns snails.
8. Kools are smoked in the yellow house.
9. Milk is drunk in the middle house.
10. The Norwegian lives in the first house.
11. The man who smokes Chesterfields lives in the house next to the man with the fox.
12. Kools are smoked in the house next to the house where the horse is kept.
13. The Lucky Strike smoker drinks orange juice.
14. The Japanese smokes Parliaments.
15. The Norwegian lives next to the blue house.

Now, who drinks water? Who owns the zebra? In the interest of clarity, it must be added that each of the five houses is painted a different color, and their inhabitants are of different national extractions, own different pets, drink different beverages and smoke different brands of American cigarets. One other thing: in statement 6, right means your right.

Que tal? Alguém se arrisca a tentar responder as duas perguntas ao final?

Trata-se de um problema clássico de lógica, em que concentração e paciência são fundamentais para se descobrir as respostas. Algo importante que deve ser feito é, em primeiro lugar, organizar o raciocínio. É possível fazer isso pegando uma folha de papel em branco e rascunhando uma tabela nela. Cada coluna conterá informações sobre uma das casas. As informações afins, por exemplo, a nacionalidade do morador da casa, devem ser escritas na mesma linha.

Pomodoro Technique

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Frustrado por ver seus projetos se esvaírem devido à falta de tempo em concretizá-los? Quer aumentar sua produtividade?

Enquanto lia algumas notícias hoje pela manhã, deparei-me com um site que informava sobre a Técnica Pomodoro para o aumento de produtividade, a ser utilizada por qualquer um, para qualquer tarefa.
Interessado, fui procurar mais informações para saber do que se tratava. A técnica foi criada na década de 80 pelo italiano Francesco Cirillo e recebeu seu nome peculiar por causa daqueles timers de cozinha em formato de tomate. Minha mãe tem um desses aqui em casa, a propósito.

Enfim, fundamenta-se no conceito de que blocos de raciocínio que sofrem curtas interrupções tendem a aumentar a agilidade cerebral. Curioso, não? Significa que, por exemplo, se eu ler um texto e quiser fazer um resumo dele, tenho um determinado intervalo de tempo para o fazer. Qual intervalo de tempo? Apenas 25 minutos. Depois disso, um pequeno intervalo de 3 minutos, para então iniciar outra tarefa.

O ideal é, antes de se aplicar a técnica, criar uma “to do list”, ou lista de tarefas.

Os passos são os seguintes: 1º) determine o que se quer fazer; 2º) marque um alarme para soar após 25 minutos; 3º) mãos à obra!; 4º) soando o alarme, marque um X na sua “to do list”; 5º) intervalo de 3 minutos.

Como descobri sobre a técnica hoje, não posso afirmar se funciona, mas fiquei tentado a testar. Em tempos em que a dispersão é o mal crônico que atinge praticamente todos, ficar 25 minutos focado em uma única tarefa pode ser uma alternativa interessante.

Pós-modernidade

Convencionou-se denominar pós-modernidade a época posterior aos anos 50, com elementos idiossincráticos próprios, dentre os quais podem ser destacados: a) individualismo acentuado – egoísmo, vaidade, preocupação excessiva com a aparência etc; b) perda dos principais referenciais – família, pátria, autoridade, religião, educação etc; c) substituição do real pela sua imagem – vale mais ter que ser; d) niilismo – nada vale a pena, vive-se aqui e agora; e) as palavras não são mais o principal meio de comunicação; f) a automação do trabalho acarretou o desemprego; g) as descobertas genéticas, as conquistas espaciais, a violência urbana dentre outros fatores promoveram uma grave crise ética.

Na pós-modernidade o homem passou a depender de tal modo das respostas científicas, que foi perdendo, gradativamente, o sentido de seu próprio valor e missão no mundo. Hoje, infelizmente, medem-se o desenvolvimento de um povo e o valor de sua cultura pelo progresso tecnológico incorporado a sua economia; despreza-se o acervo de suas tradições, crenças, realizações no cenário internacional, que representam a verdadeira riqueza de uma nação e que a distingue das demais.

Também fica evidente a crescente falta de compromisso com os valores morais e ético-profissionais, o que gera conflitos diários.

Das distinções entre indivíduo e pessoa

Pra variar, fazia um tempinho já que eu não atualizava o blog! É que esse é o último mês de aulas, e como na semana do dia 28 terei 4 provas “acumuladas”,  tô tentando colocar tudo em dia nesses dias de feriado. Bom, aproveitando essa noite de domingo, eu tava estudando Sociologia, lendo capítulos de livros fotocopiados e organizando as anotações feitas em sala de aula. Então me deparei com esse texto, que achei bastante interessante. Trata-se de um excerto do livro de Roberto da Matta, “Carnavais, malandros e heróis”:

“As considerações que fizemos até agora sugerem alguns pontos importantes como as oposições entre o pessoal e o impessoal, o público e o particular, o anônimo e o conhecido, o universal e o biográfico. Tudo, como vimos, conduzindo à descoberta de que, no sistema brasileiro, é básica a distinção entre o indivíduo e a pessoa, como duas formas de conceber o universo social e de nele agir. (…)

A ideia de indivíduo comporta três eixos básicos. Num plano, temos a noção empiricamente dada do indivíduo como realidade concreta, natural, inevitável, independente das ideologias ou representações coletivas e individuais. Não há formação social humana sem o indivíduo. Mas entre reconhecer a existência empírica do indivíduo e surpreendê-lo como uma unidade social relevante a ativa numa formação social, capaz de gerar os ideais concomitantes de individualismo e de igualitarismo, é um fato social e histórico, produto do desenvolvimento da civilização ocidental. É só nesta civilização que a ideia de indivíduo foi apropriada ideologicamente, sendo construída a ideologia do indivíduo como centro e foco do universo social, contendo dentro de si a sociedade. Embora toda a sociedade seja constituída de indivíduos empiricamente dados, nem toda a sociedade tomou esse fato como ponto central de sua elaboração ideológica.

Assim, o social é aquilo que é tomado do empiricamente dado (natureza) e conscientemente elaborado por alguma entidade, de modo que ela possa tomar uma posição ou criar uma perspectiva.

A ideia de indivíduo recebeu duas elaborações distintas. Numa delas, como acabamos de ver, tomou-se a sua vertente mais individualizante, dando-se ênfase ao “eu individual”, repositório de sentimentos, emoções, liberdade, espaço interno, capaz de pretender a liberdade e a igualdade, e o poder de optar, um dos seus direitos mais fundamentais. A noção geral é que a sociedade deve estar a serviço do indivíduo, o contrário sendo uma injustiça que importa corrigir.

Outra vertente é a elaboração do seu polo social. Aqui, a vertente desenvolvida pela ideologia não é mais a da igualdade paralela a todos, mas a da complementaridade de cada um para formar uma totalidade que só pode ser constituída quando se tem todas as partes. Em vez de termos a sociedade contida no indivíduo, temos o oposto: o indivíduo contido e imerso na sociedade. É essa vertente que corresponde à noção de pessoa como a entidade capaz de remeter ao todo, e não mais à unidade, e ainda como o elemento básico através do qual se cristalizam relações essenciais e complementares do universo social. (…)

A noção de pessoa pode então ser sumariamente caracteriza como uma vertente coletiva da individualidade, uma máscara que é colocada em cima do indivíduo ou entidade individualizada (linhagem, clã, família, metade etc) que desse modo se transforma em ser social. (…)”