Uma perspectiva Anonymous
publicado originalmente em 3 de setembro de 2016 Anonymous FUEL Anonymous

Este texto é o resultado de algumas pesquisas nossas, somado à participação de nossa comunidade virtual em debates ao longo dos últimos dias. O texto também foi levado para outras equipes Anonymous com quem mantemos contato para que pudessem também nos dar suas impressões, o que resultou neste produto final. Agradecemos a quem se dispôs a colaborar de alguma forma. Somos um!

1. O que é um impeachment?

Primeiramente, precisamos entender que o impedimento (impeachment) de um presidente está previsto na Constituição de 1988, nos artigos 85 e 86, bem como na Lei 1.079/50 (“Lei do Impeachment”). Para que ele aconteça, o presidente deve ser afastado após a comprovação de um ou mais crimes de responsabilidade (definidos no artigo 4º desta lei).

2. Aspectos jurídicos do processo

Desde março de 2015, foram efetuadas 46 denúncias por crime de responsabilidade contra Dilma Rousseff. 45 deles foram negados por inconsistências. As acusações variavam de críticas à “má gestão” e até a nomeação de Lula ao Ministério da Casa Civil (que não configuram crimes de responsabilidade). Uma delas, contudo, foi aceita por Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados.

A denúncia do ex-procurador Hélio Bicudo e dos advogados Janaína Paschoal e Miguel Reale Júnior, encomendada pelo PSDB (partido da oposição) por 45 mil Reais, acusava Dilma de efetuar pedaladas fiscais e abrir créditos suplementares. Pedaladas fiscais são atrasos no repasse do Tesouro a bancos públicos encarregados da operação financeira de alguns programas sociais. Pode-se argumentar que é uma maneira de cumprir artificialmente o orçamento, mas não é crime de responsabilidade segundo a lei. O que ocorre é que em 2015 houve mudança de jurisprudência no TCU (Tribunal de Contas da União), de modo que se as pedaladas ocorressem depois dessa alteração poderiam sim ser consideradas crime de responsabilidade. Mas a lei nesse caso não é retroativa, então não se justifica crime.

Segundo a lei Orçamentária Anual vigente na abertura de créditos suplementares (aprovada, inclusive, pelo Congresso), este processo também não configura crime de responsabilidade, mas ocorre aí uma divergência de interpretações, que é a parte mais complexa do processo e divide as pessoas entre “é crime” e “é golpe”.

O ponto crítico, de maneira simplificada, é a assinatura de decretos pela ex-presidente a partir de dezembro de 2014 para abertura de crédito sem autorização do Congresso. Qualquer comprometimento ao orçamento, contudo, deve ser efetuado por lei (com aprovação do Congresso) que autorize a abertura desses decretos. No entanto, ações orçamentárias e financeiras têm características diferentes. A LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) orienta e planeja, mas não representa necessariamente a realidade fiscal, de modo que baixa arrecadação ou despesas imprevistas do governo podem pedir mudanças na estratégia financeira. Se a adaptação não descumpre o orçamento, então não se pode considerar um crime de responsabilidade. Tanto é assim, que muitas prefeituras, governos estaduais e inclusive o governo federal já usaram a estratégia.

Outro ponto relevante é que, segundo a AGU (Advocacia Geral da União) teriam ocorrido uma série de abusos de procedimento, principalmente por parte de Eduardo Cunha. Esses esclarecimentos se fazem necessários para deixar claro que os aspectos jurídicos do processo são bastante frágeis, apresentam dependência de interpretação e, num português mais direto, houve muita “forçação de barra” por parte da acusação.

3. Questões políticas e a trama do Congresso

Várias denúncias de corrupção pesam sobre Eduardo Cunha, de modo que ele ficou “na reta” da cassação. Além disso, a operação Lava Jato vinha caminhando num passo acelerado e já havia condenado e prendido inclusive membros do próprio governo e empresários importantes dentro de grandes empreiteiras (como a Odebrecht). Foi a primeira vez que uma operação federal atacou, de fato, o coração da corrupção institucional. Não somos nós quem vai dizer os porquês. Não existe boa intenção nesse nível da política, e é provável que o PT tenha aproveitado os primeiros mandatos na busca de estabilidade econômica para ter peito e bater de frente contra alguns desses esquemas que sempre mantiveram o Brasil nas mãos de alguns donos. E veja, o processo não é necessariamente pra libertar o país, mas provavelmente para mudar de donos.

Vários momentos do governo federal petista sinalizaram isso. A formação e encaminhamento do BRICS é um exemplo. Não se trata de negar o neoliberalismo e o imperialismo, mas de tentar consolidar um novo eixo no qual ocupamos uma posição de maior destaque, menos subserviência, porém dentro do mesmo jogo. Isso mudaria um pouco como as coisas funcionam por aqui. O Brasil ainda sofre muita influência da política do eixo EUA-UE (Estados Unidos e União Europeia), frequentemente se colocando como seu cão de guarda na América Latina. De modo resumido, iniciamos um processo de transição do capitalismo azul para o capitalismo vermelho.

Isso incomodou muitas das oligarquias nacionais, que são as famílias tradicionais que mandam nesse país há décadas (algumas, há séculos). Essas são as famílias cujos membros ocupam função de diretoria nas maiores empresas do país, representam seus conglomerados econômicos e ganham as eleições por força de propaganda e investimento, ocupando as cadeiras da Câmara Federal e do Senado.

Pois é, muita coisa de uma vez, incomodando muita gente com poder. Agora, um ingrediente fundamental dessa sopa, que não pode ser deixado de fora, foi a gestão econômica de Dilma. No final de seu primeiro mandato, a fim de garantir as eleições, a então presidente se valeu de pesadas intervenções na economia, sobretudo no setor energético e sobre o Banco Central. A curto prazo, a medida foi efetiva, mas gerou a instabilidade econômica que estamos vivendo agora.

Aproveitando esse cenário, a oposição iniciou o processo de modo que o governo se viu temporariamente congelado, e junto do afastamento da presidência, o país ficou refém da própria situação. Para a opinião popular média, não importa se houve crime ou não, importa o preço do feijão. Desse modo, foi possível manipular a opinião pública pela rejeição da presidente, deixando-a mais frágil politicamente e aumentando as chances de o processo resultar em seu impeachment.

A Lava Jato está parada, Cunha está temporariamente fora da mira (e, se for cassado, ainda representa um sacrifício que valeu a pena), o PMDB continua mandando politicamente no país e, também importante, a política externa brasileira está abalada. Os rumos sobre quem estará do nosso lado ou contra nós daqui pra frente são bastante incertos, o que facilita uma guinada pra qualquer dos lados.

4. Foi golpe ou não foi?

A pergunta de um milhão de dólares tem dividido o país quanto à leitura desse episódio (o que não significa que outras profundas divisões já não estivessem presentes em nossa sociedade desde seu princípio, vamos deixar isso claro). E a coisa não é tão simples. Não se trata de ser a favor ou contra o impeachment, mas de uma série de ponderações que tentaremos resumir aqui.

A parte fácil de entender é que temos uma oposição cujo projeto político é financiado por elites, favorável ao processo de impeachment. Para essas pessoas, não é golpe. Se trata de um procedimento jurídico justificado sobretudo pela gestão econômica do governo petista. Apesar da acusação de crime ser mais restrita à questão da abertura de créditos, as justificativas apresentadas durante o julgamento, tanto pela promotoria de acusação quanto pelos deputados e senadores que a apoiavam, rodou em torno da forma como a presidência geriu o país economicamente. Ficou evidente para quem acompanhou o processo que esse é o “x” da questão. Aliado a esse grupo também está a parte do povo brasileiro que não concorda com essa gestão econômica (e se alinha à oposição) ou está num estado de insatisfação política que acredita que deve começar por algum lugar, na esperança de que desse processo decorram mais cassações e se derrube um a um dos envolvidos em casos de corrupção.

Na contramão, temos a base governista, cuja participação política no país também é financiada por elites, porém contrárias ao processo de impeachment porque se beneficiaram dos últimos anos de governo. É importante ressaltar aqui que o governo petista não foi “para o povo” como se faz parecer em algumas de suas propagandas e de seus aliados. Foi apenas uma outra forma de gerir o Capitalismo de Estado, entendida por alguns como mais humana. As políticas de assistência e bem-estar social (welfare) são um pilar do capitalismo em muitos países. Elas servem inclusive para manter a estabilidade econômica, dando mais poder de consumo às classes pobre e miserável, aquecendo o mercado como consequência. Essas políticas, se não são acompanhadas do enfrentamento do lucro abusivo por parte de bancos e algum controle sobre grandes setores como o imobiliário, gera problemas a longo prazo (como estamos vendo agora). Para os membros e apoiadores dessa proposta de governo, justamente pelo amparo das acusações ser o desagrado com a gestão econômica e não um forte embasamento jurídico do processo, é golpe. Golpe no sentido de, se o plano político não satisfaz o grande interesse capital, ele deve ser substituído. O aspecto curioso que sustenta essa tese é que dois dias após o impedimento da presidente já se aprovou uma nova legislação que não torna mais o procedimento ilegal. Ou seja, ela foi retirada de seu cargo por supostamente cometer um crime, mas foram mantidos seus direitos políticos, o que é bastante contraditório. Na sequência, aprovou-se que deixe de ser crime, de modo que outros políticos que já usavam as mesmas práticas não pudessem ser também condenados.

Esse tipo processo é mais frequente no Brasil do que as eleições diretas que resultam em presidentes eleitos que concluem seus mandatos. Nada tão novo assim. Justamente por não ser nada tão novo, parte da oposição de Esquerda (com o destaque aqui de que Direita e Esquerda não são hegemônicas e apresentam muitas divergências dentro de seus espectros políticos) e de alguns indivíduos e agentes políticos independentes não acha prudente chamar de “golpe” um processo que é intrínseco ao nosso modelo de democracia representativa. Nós, particularmente, estamos mais próximos dessa visão (e acreditamos que boa parte das células Anonymous mais sérias também estejam).

Porém, é importante entender que ao escolher não chamar de golpe ou admitir que isso é parte do jogo “democrático” não significa que se concorde com o que aconteceu, nem com a forma com que aconteceu. É apenas uma leitura menos “8 ou 80”. Não dá pra dizer que a democracia morreu se ela, de fato, nunca chegou a nascer. Ainda são oligarquias financiadas por elites no poder, o governo ainda existe para beneficiar estes grupos a partir da exploração do povo. E, mais importante, a violência institucional sobre as populações oprimidas permanece.

Nos últimos dias (como em todos os outros), não era a visão ou a vontade do povo que estava em jogo no Senado. Ali estavam presentes a elite conservadora, a elite progressista, a elite social democrata, a elite social liberal, a elite liberal econômica, a elite privatista, a elite reformista, etc. Não tinha povo ali, nem nos últimos dias, nem antes. Nem na condição de juiz, nem na condição de réu.

5. É problema nosso?

Sim. Não pelo que aconteceu em específico, mas porque já era problema nosso e vai continuar sendo. Nós vimos o ex-presidente e atual senador Collor, que também sofreu um impeachment durante seu exercício de cargo, discursar sobre a invalidade jurídica do processo, sobre a manipulação midiática da opinião popular, sobre um golpe arquitetado pela oposição. Ele se referia ao próprio impeachment. E depois de dizer isso tudo, foi lá e votou “sim” pela condenação. Nós vimos a Janaína Paschoal virada no cão alegando que o responsável pela articulação da oposição foi Deus. Nós vimos a base aliada protegendo seu quinhão repetindo discursos vazios cuja tônica era “crime de todos não é crime de ninguém”. Nós ouvimos até mesmo que a justiça no país começou naquele julgamento, porque agora as redes sociais dão poder de fiscalização ao povo sobre a classe política (num país onde metade da população sequer tem acesso à internet!). Tudo errado, não?

Com exceção de um ou outro discurso mais razoável, o Senado nos mostrou que não tem nada diferente da Câmara, nem do restante da classe política do nosso país. É um conluio teatral, disposto a manter os próprios interesses e a própria imagem apenas. Não tinha nenhum amigo da presidente se manifestando ali, tinha gente preocupada com o registro de fala que vai ser feito em seu nome. Porque se isso resultar numa martirização, eles serão lembrados como amigos do mártir. Não era proteção de justiça, era manutenção de poder da própria base (a aliada) porque esse processo resultaria em grande perda de poder político pra eles. E a acusação estava longe de se preocupar com ética, com a Constituição ou com o povo. Era uma rede de proteção, para conquista de mais poder político no país por vias ilegais (o que também não é novo) e blindagem dos seus nas investigações criminais que vinham ocorrendo.

O processo de inquérito e defesa durou cerca de 14 horas, e foi marcado por perguntas vazias que não se relacionavam a uma acusação jurídica e apenas criticavam uma gestão econômica. Traduzindo, até os 5 a 10 minutos que os Senadores tiveram para trabalhar nesse processo foi usado pra fazer propaganda política própria. E então, diante da repetição insistente da mesma pergunta, “mas a senhora não acha que gastou demais?” a acusaram de repetir a mesma coisa nas respostas. Isso não bastasse boa parte dos articuladores do processo estarem, eles mesmos, sendo investigados ou réus em processos.

Na Comissão do Impeachment (primeira instância do processo), 34 dos 65 estavam sendo investigados pelo STF. Dos 513 parlamentares que votaram na primeira sessão, 271 na mesma situação. E da mesma forma, a maioria dos senadores investigados pela Lava Jato votou a favor nessa última instância.

Se aconteceu algum golpe, em nosso entendimento, foi um golpe de realidade na nossa cara. Pra quem ainda estava com dificuldade de enxergar o que é nossa estrutura de poder e como ela funciona, esperamos que tenha ficado mais claro. Mas o que isso significa, afinal? Que não tem nada que possa ser feito por essa democracia, então deixemos isso pra lá e cuidemos de nossa vida?

6. Uma análise Anonymous

… Bem… Meio que… Sim 😐

Mas vamos explicar, pra que não pareça mais um processo alienante. Acreditamos que esteja mais claro, a essa altura do campeonato, porque os nossos títulos de eleitor não valem pra muita coisa. Também acreditamos que já esteja mais claro que a via eleitoral não é capaz de transformar significativamente os quadros políticos em nosso país, porque nas raras vezes em que for possível “votar certo” se isso incomodar quem manda no país, eles vão tirar e fazer todo mundo acreditar que é melhor assim.

As oligarquias brasileiras, que na prática configuram uma plutocracia (ou seja, governo dos mais ricos) têm nas mãos a maior parte das prefeituras, os governos estaduais, o Congresso, o Senado e a presidência. O que nos sobra? No fim, nossas vidas. Se não cuidarmos uns dos outros, não existe mesmo esperança alguma de transformação. Cuidando, na verdade, já não existe muita. Essas estruturas de poder são muito bem consolidadas historicamente, já aprenderam muito a cada rebelião popular sobre como nós funcionamos e o que precisam fazer pra nos colocar no lugar.

Em outras palavras, talvez seja momento de desistir da corrida eleitoral e se organizar por pautas concretas das populações mais oprimidas. É só assim que vamos conquistar alguma igualdade pra que uma democracia faça minimamente sentido. E veja, não estamos falando de igualdade econômica apenas. Não resolveremos as coisas transferindo dinheiro da elite para os mais pobres se antes ou durante esse processo não garantirmos igualdade de direito para todas as pessoas.

A legislação trabalhista, por exemplo, vem sendo massacrada desde o governo anterior, e vai continuar sendo massacrada pelo “novo” governo, com a proteção midiática de ser uma medida necessária pela “maldita herança econômica” do governo “anterior”. Mas isso também é forjado. Meticulosamente planejado. A violência contra negros, mulheres e LGBTs, sempre colocada como secundária, talvez deva ser encarada como prioridade pra que esses grupos possam se inserir nas pautas consideradas mais amplas, uma vez que não precisarem mais se dedicar à própria sobrevivência no combate à violência estrutural específica que sofrem.

A educação talvez precise ser encarada com mais cuidado. Com menos cobrança inocente sobre as autoridades responsáveis, que nada fizeram além de sucatear e encaminhar à privatização. Articular comunidades por esses espaços e ressignificá-los para uma realidade combativa, como alunos secundaristas recentemente fizeram. Mais que isso, a educação deve ser entendida no seu aspecto amplo, não restrita aos muros da escola. Fortalecer mídias alternativas, criar espaços de formação independentes, tudo isso é muito importante.

Não é como se fosse simples. Não é como se estivesse ao alcance de todo mundo. Mas dentro da sua esfera do possível, cada um precisa fazer essa avaliação, sobre o que eu posso e o que eu não posso. Porque dentro das escalas de opressão, existem também níveis de privilégio. Existem algumas pequenas blindagens, imunidades e vantagens por ser branco, por ter um emprego e ganhar bem, por ser homem, etc. E no lugar de usar esse “bônus social hierárquico” pra catequizar as periferias, porque não dedicar-se a emancipar seus arredores, enquanto dá mais espaço de voz e luta a quem mais precisa?

Não há receita pronta, não há mágica possível. Mas há uma necessidade de nos enxergarmos como iguais para buscar igualdade. Perder a mania de cativar massas, perder a mania de querer salvar um povo sem conhecê-lo ou ao menos ouvir o que ele tem a dizer, como se a realidade brasileira fosse uma só, discutível numa reunião pela internet.

Também é preciso maturidade pra ouvir os “vândalos” e entendê-los. A experiência prática de algumas pessoas que ficaram em choque com a violência policial dos últimos protesto na Avenida Paulista contra Temer e o impeachment pareceu ter aberto minimamente os olhos de parte da população que até então defendia o “sem violência” como um princípio inquestionável. Exibe-se com orgulho os relatos de que a democracia acabou porque “agora fui eu quem apanhou” enquanto a insensibilidade não permite perceber que em alguns setores da sociedade essa violência é constante e independente de qualquer manifestação. E não dá pra esperar que a periferia se comova com o relato desesperado de quem, na casa dos 20, estudado e com acesso aos meios de comunicação, com um perfil que comove a opinião pública, apanhou da polícia pela primeira vez. Não ao menos enquanto nessas regiões um saco de pipoca pode ser “confundido” com drogas e justificar tiros pelas costas. Não enquanto, nesses locais, amigos num carro for justificativa pra mais de cem tiros, festa de aniversário for justificativa pra espancamento, chegar tarde em casa seja justificativa pra todo tipo de violência, e os casos são muitos. Por que essa não é a prioridade? Por que entrar em defesa da vítima teatral de uma peça política, mas não entrar em defesa da população massacrada diariamente?

“Mas como assim vítima teatral, FUEL?”

7. Primeiro como tragédia, depois como farsa

É assim que a história se repete.

Antes de mais nada, compreendam que a análise que segue não é comprovada completamente em fatos, apesar de ser baseada na história do nosso país. É um ponto de vista especulativo, e vocês são livres para acreditarem ou não. Mas pedimos, ao menos, que considerem.

A grande política só se faz com base em acordos, alianças e conchavos. Motivo pelo qual não há quem sobre sem rabo preso. Nossa democracia nunca foi bem consolidada. Ou seja, nunca foi bem democracia, o que se sustenta inclusive pelo Índice de Democracia e pelo Índice de Liberdade de Imprensa. Isso não é alvo de atenção pública, mas até mesmo a proclamação de nossa república foi um golpe, no estabelecimento do primeiro regime militar. No Estado Novo tivemos a ditadura de Getúlio Vargas, e então seguiu o golpe de 64. A Lei do Impeachment, a que se recorreu dias atrás, foi criada durante a ditadura com a função básica de remover presidentes caso a Arena perdesse. O que vivemos agora não é radicalmente diferente do que vivemos há várias décadas de política comprada e preestabelecida.

Aprendemos (ou ao menos esperamos que sim) que nosso voto não vale pra absolutamente nada quando ele não converge com o interesse das oligarquias. Quando a gente vota como eles querem, chamam de democracia. Quando vota contra o que eles querem, eles mudam o resultado em nome da democracia.

Então o que raios é essa democracia, senão as regras abusivas de um jogo proposto por quem já estava no poder antes dela e ainda permanece?

Atentando especificamente para o caso de Dilma, talvez nem todo mundo consiga enxergar o que significa quando usamos o termo “acordão” ou nos referimos à política partidária não radical como “centrão acordista”. Vamos explicar um pouco melhor. A cena é mesmo trágica. É horrível de assistir. Nós sabemos disso porque acompanhamos todo o processo, ouvimos cada declaração e quisemos morrer enforcados como todo mundo que fez o mesmo.

Mas boa parte do que está acontecendo com o Brasil aconteceria com ou sem Dilma, com ou sem Temer. Mas com a Dilma, essas medidas de contenção e agressão às leis trabalhistas ainda seriam protegidas por boa parte da esquerda partidária, unicamente por se tratar de um governo petista (alô, UNE e suas organizações estudantis acessórias, também estamos falando de vocês). Ainda estaríamos no ingênuo apego ao “menos pior”, com medo de um grande ditador assumir o país, sem perceber que isso alimenta uma ditadura um pouco mais discreta (essa que chamamos de “democracia”).

Quem mais ganhou com o que aconteceu foi o PT. Sangra-se a presidente publicamente, de modo que a oposição é que viva esse momento econômico arriscado. Quem passa a ser a nova oposição é justamente o partido que teoricamente saiu do poder, e então se torna possível ter um diálogo com movimentos sociais que negaram nos últimos 10 anos ou mais. Na crença de que se está unificando as esquerdas como oposição, esses movimentos sociais aceitam o diálogo e entram no coro: “fora Temer!”. A base aliada se coloca como parte do martírio, chora a democracia derrubada em frente às câmeras e garante apoio e aceitação da chapa quando ela decidir voltar à disputa eleitoral. Dois anos depois, se apresentam, todos, como alternativa democrática aos dois anos de opressão que eles mesmos teriam realizado, estivessem ainda no poder. Com aplausos internacionais.

Dessa forma, um governo “do povo” vendeu todas as suas pautas progressistas em troca de apoio. Vendeu a lei antiterrorismo para a bancada da bala, vendeu a CLT para grandes empresários, vendeu a pauta LGBT e do aborto para a bancada evangélica, vendeu a pauta agrária para a bancada ruralista. Vendeu tudo e saiu de cena, vai deixar o circo pegar fogo na mão de um mais bobo e menos popular. E vai voltar. E vai dizer que “restabeleceu” a democracia. E vai ser verdade, porque a democracia em nosso país é essencialmente esse jogo.

Então agora vamos conversar. É, sim, compreensível o apreço de grande parte da população pelo governo petista. As políticas aplicadas pela mitigação da desigualdade afetaram diretamente e a curto prazo grande parte da população. Mas depois de todo esse processo, conseguimos compreender que a longo prazo o capitalismo é a própria crise? Que na hora que apertar, quem vai ser pisoteado de novo é o pobre e o trabalhador?

Entendido isso, e com Dilma fora da presidência, podemos admitir que esse Estado está pouco se importando conosco e existe pra nos manter sob controle? E que faz isso em razão do poder econômico exercido sobre ele através de seus representantes (não nossos)?

Repetimos a pergunta que fizemos um pouco antes:

“Mas o que isso significa, afinal? Que não tem nada que possa ser feito por essa democracia, então deixemos isso pra lá e cuidemos de nossa vida?”

Mas vamos deixar outra pessoa responder:

“É verdade que, em dia de eleição, mesmo a burguesia mais orgulhosa, se tiver ambição política, deve curvar-se diante de sua Majestade, a Soberania Popular. Mas, terminada a eleição, o povo volta ao trabalho, e a burguesia, a seus lucrativos negócios e às intrigas políticas. Não se encontram e não se reconhecem mais. Como se pode esperar que o povo, oprimido pelo trabalho e ignorante da maioria dos problemas, supervisione as ações de seus representantes? Na realidade, o controle exercido pelos eleitores aos seus representantes eleitos é pura ficção, já que no sistema representativo, o controle popular é apenas uma garantia da liberdade do povo, é evidente que tal liberdade não é mais do que uma ficção.”
[Mikhail Bakunin – A Ilusão do Sufrágio Universal]

No início dessa semana, uma presidente foi deposta de forma injusta, após longo processo de defesa, embora mantendo seus direitos políticos, para que se sustentasse uma estrutura de poder.

Ao longo das últimas décadas, a população negra vem sendo chacinada pela polícia. A população do campo vem sendo chacinada pelo agronegócio. A população indígena vem sendo chacinada pelo governo em nome de um suposto progresso. A população pobre vem sendo explorada pra manter o conforto econômico de elites que não sabem o que é passar dificuldade, pois obtém seus serviços mais básicos fora desse país.

Você vai às ruas em defesa dessa presidente? Ou vai finalmente se reconhecer como parte desse povo e começar a trabalhar por ele?

Pense nisso. Assim que passar o luto, assim que passar o pesar, assim que cessarem as lágrimas de decepção por tanto trabalho honesto dedicado na eleição de um programa no qual você acreditou.

Não é hora de trabalhar diretamente pelos seus?

Somos muitos e estamos em todos os lugares.
Somos um.

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